Eram 6 horas da manhã quando o despertador gritou. Se fosse um dia comum, talvez o corpo pesado se moveria com dificuldade entre os lençóis até despencar no chão. Os pés se arrastariam em direção ao banheiro, então correriam para a porta e sairiam mecanicamente pela cidade para viver mais um dia, como outro qualquer.

A mais de 10 anos Gisele Galdofi passou a acordar de um jeito diferente. Os pés descalços encontram agora a grama verde e caminham sem pressa para o chão fresquinho de seu atelier de cerâmica. Depois de trabalhar no mercado financeiro, trocou o ar denso da cidade de São Paulo pela paz e tranquilidade do sítio da família em Ibiúna, onde encontrou na essência da natureza um novo caminho.

Nas paredes de seu atelier as lembranças de sua viagem com a chef Ana Luiza Trajano pelo projeto Sabores do Brasil, nas prateleiras as cerâmicas de curvas sedutoras inspiradas na natureza e cultura brasileira, e no ar, os aromas que se misturam e criam uma nova dança a cada momento do dia – quando visitei o atelier, Gisele aproveitava o calor residual do forno para desidratar frutas e temperos.

Enquanto seu cachorro Zeus aproveita a minha visita e descansa no chão fresquinho do atelier, Gisele e mais três ceramistas trabalham sem parar, moldando, tingindo, e alimentando o forno com peças que vão para seu show room, na Vila Madalena, e outras tantas encomendadas de uma vasta lista de chefs paulistanos.

Com um olhar apaixonado sobre suas peças, ela parece dançar enquanto caminha. Sem nem precisar mostrar os dentes, vejo sua alma sorrir. Não é para menos, estou diante de uma mulher que exala inspiração e encontrou na argila a resposta para uma nova vida.

Com vocês, Gisele Gandolfi e a essência brasileira do Atelier Muriqui!

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Você deixou para trás uma vida corporativa para abraçar um novo caminho através da arte, onde encontrou a argila. Apesar disso já ter ocorrido a bastante tempo, como e quanto sua vida mudou até hoje?

Foi na Itália meu primeiro contato com o barro, e desde então, a transformação do barro em cerâmica e as possibilidades de explora-la para o uso cotidiano e expressão da cultura vem desenvolvendo um caminho bem marcante, intuitivo e compulsivo na minha vida.

Hoje minha cabeça trabalha o tempo todo em função do meu trabalho. Qualquer encontro com uma pessoa, uma ideia, uma forma ou cor pode ser interessante para o desenvolvimento de novas peças. Estou sempre viajando, lendo e pesquisando assuntos que realmente me interessam.

Mesmo que eu, super leiga no assunto, imagine que trabalhar com argila em um sítio rodeado por natureza seja super tranquilo, por trás existe a cobrança de um prazo a ser cumprido para entrega das peças; mas ao mesmo tempo é preciso respeitar o tempo de forneamento, secagem, etc. Como você controla isso?

O barro, como você disse, tem o timing dele para poder virar cerâmica, e por isso ele me disciplina. Todo o processo desde o briefing de um cliente até a entrega das peças exige muito trabalho em equipe, planejamento e cronograma a longo prazo. No atelier em Ibiúna temos a paz que precisamos para trabalhar com o barro e também para eu me reabastecer para a vida corrida de São Paulo.

As peças do Atelier Muriqui

O atelier Muriqui nasceu da demanda da chef Ana Luiza Trajano, que foi a primeira chef a utilizar suas peças no restaurante Brasil a Gosto. Hoje você trabalha com uma lista vasta de chefs de cozinha. Como ocorre seu trabalho com esses chefs ? Como é essa relação entre os desejos deles e o seu processo de criação?

Gosto muito de pensar na cerâmica a serviço da comida. São dois mundos gigantescos e que exigem um mergulho cultural nos saberes. Tenho muitas peças em linha que já atendem as atuais necessidades do mercado, algumas necessidades precisam de alguns ajustes nas peças.

Outras demandas exigem referências, fotos, sabores, cores, desenhos, viagens e até a convivência com o cliente para conhecer a identidade da cozinha executada para que esta reflita, tenha coerência, com a apresentação que chega ao público.

A sua fonte de inspiração é claramente a natureza e a cultura brasileira. O que até hoje você aprendeu com esse relacionamento?

Eu aprendo todo dia… Passeando por mercados, plantações, florestas, comendo bem, conversando sobre vários os assuntos com as pessoas que encontro e transformando todo este aprendizado abstrato, indizível, em novas peças.

Qual a essência do Atelier Muriqui?

Manter-se experimental e sustentável criativamente, economicamente e comercialmente. Ou seja, atender ao mercado e conciliar elucubrações de argilas, esmaltes e técnicas de um trabalho de atelier.

Para terminar, responda rápido, a primeira palavra ou frase que surgir na sua cabeça!

Um sabor: fruta no pé

Uma lembrança: escorregar no tobogã de argila que cavávamos na represa

Um momento: o silêncio quando as pessoas dormem e eu ouço meus pensamentos

Uma sensação: estar presente, à altura dos conhecimentos

Um lugar: o atelier em Ibiúna

Uma peça favorita: tigela

Um pensamento: por que não?

Quem quiser conhecer um pouco mais sobre seu trabalho pode te encontrar como?

No ponto de venda da Vila Madalena, no Espaço da Revista Cult, na Rua Aspicuelta, 99 ou pelas redes sociais:  instagram, @atelier_muriqui e facebook, /atelier.muriqui.

Confira as receitas criadas com exclusividade para a Gisele, clicando aqui, aqui e aqui – e uma playlist totalmente inspirada na essência do Atelier Muriqui!