Hornberger em vestimenta de 1900

O bolo Floresta Negra é um dos bolos mais conhecidos e populares do mundo. É possível encontra-lo em um casamento na Índia, na mesa de uma aniversário no Brasil e nas vitrines das confeitarias no Egito, e porque não dizer no Japão? Amado ou não, é um bolo simples de ser feito – um pão de ló de chocolate umedecido com kirsch, recheado com cerejas e creme chantilly – mas que possui uma história cheia de lendas, deixando tudo muito mais divertido!

O bolo de creme e cerejas que se espalhou na Alemanha por volta de 1930 e se tornou mundialmente famoso possui ao menos três versões (ou lendas) para sua origem. A primeira diz que o Schokoladen Raspel Belag, ou as raspas de chocolate que decoram o bolo, se assemelham às árvores da floresta, outra diz que seu ingrediente principal, o kirsch (um licor de cerejas), produzido principalmente na Floresta Negra, inspirou sua criação; e uma terceira possível versão ainda afirma que o bolo foi inspirado nos trajes das mulheres da região: o vestido preto como as raspas de chocolate, a blusa branca como o creme (de manteiga ou chantilly) e o Bollenhut, um chapéu de bolas vermelhas, se assemelhando às cerejas.

Hornberger em vestimenta de 1841

Hornberger em vestimenta de 1841

Mas, podemos ir um pouco mais longe, lá na Pérsia, onde um chef confeiteiro, e eunuco, teria inventado o bolo para levar às senhoras do harem do imperador. Ou ainda na Suábia! Isso mesmo. Um jovem de nome Joseph Keller (1887-1981), completou seu serviço militar na Renânia e trabalhou em uma padaria em Bad Godesberg para obter seu certificado como chef confeiteiro e criou, em 1915, um bolo de creme com cerejas que ficou muito popular entre os clientes, e conhecido como o primeiro bolo Floresta Negra da história. A fama do bolo levou o jovem chef a conquistar seu próprio café em Radolfzell, no Lago Constance Baden.

Todas essas versões são desafiadas pela pesquisa realizada pelo arquivista Udo Rauch, que teria descoberto uma foto mostrando o chef confeiteiro Erwin Hildenbrand, do café Walz em Tübingen, em 1930, confeitando o primeiro bolo Floresta Negra. Mas, como existem registros da receita de Keller, em 1915, essa história muda de versão e entra para o reino das lendas que rodeiam a origem do bolo Floresta Negra.

Historiadores ainda afirmam que o bolo possui origem suíça, e o Floresta Negra nada mais é do que um reconhecimento ao Schwarzwaldtorte, precursor da receita.  Outros que a combinação de cerejas, creme e kirsch já era familiar na parte sul da região da Floresta Negra, mesmo sendo mais uma sobremesa do que propriamente um bolo. A adição de chocolate ocorreu não na região da Floresta Negra, mas sim em Bad Godesburg, perto de Bonn, pelas mãos do já conhecido por nós, chef militar Joseph Keller, em seu famoso café Ahrend (hoje chamado de Agner), em 1915, com a criação da Schwarzwaelder Kirsch, ou “Black Forest Cherry”.  Mas assim como a receita suíça de Schwarzwaldtort, a criação de Keller, que mais se assemelharia a uma torta, tem apenas uma camada com a base de murbeteig (massa doce para tortas, como a francesa sablée).

Josef Keller

Josef Keller

Agosto Schaefer, aprendiz de Keller, de 1924 a 1927, herdou o livro de receitas que continha a receita original do doce e seu filho, Claus Schaefer, o Konditormeister, confeiteiro mestre, atual do Triberg Café Schaefer, agora com o livro em mãos reproduz a versão original do Schwarzwaelder Kirsch, que nada se assemelha a uma torta, e sim a um bolo com massa de chocolate, creme e cerejas, como conhecemos atualmente.

Mas tudo muda quando conversamos com as pessoas da região da Floresta Negra. Todas essas lendas e até histórias confirmadas por bibliografias, ganham uma nova versão, dependendo com quem você conversar, claro! Alguns confirmam que um alemão sentou-se à sombra de uma árvore na floresta e teve a ideia de criar um bolo com os ingredientes da região. Simples assim!

Independentemente da versão, da lenda e da criatividade da população, a primeira receita de bolo Floresta Negra aparece em 1934 no livro de J. M. Erich Weber: 250 confeitarias – suas especialidades e como elas ficaram famosas. De sua criação até os dias de hoje, a fama e seu reconhecimento pelo mundo fez com que em 1949 o bolo Floresta Negra fosse o 30° bolo preferido dos alemães, tornando-se o bolo mais vendido no país e de maior reconhecimento mundial, com direito a festival, em Todtnauberg, na Alemanha (uma vila na Floresta Negra), e a data nacional de comemoração em 28 de março, só que nos Estados Unidos!

 

Referências

BLUMENTHAL, Heston. In search of perfection: reinventing kitchen classics. BBCNew York, 2006.

CASTELLA, Krystina. A World of cakes: 150 recipes from street traditions from cultures near and far. Storey Publishing, 2010.

Café and Conditorei Schaefer. Black Forest cakes: From the original recipe. Disponível em: < http://www.cafe-schaefer-triberg.de/englishversion/blackforestcherrycake/index.html> Acesso em13 de novembro de 2014.

FOOD HISTORY. The history of black forest Cherry torte. Disponível em: < http://www.kitchenproject.com/history/BlackForestCake/index.htm> Acesso em 25 de julho de 2014.

PLANET WISSEN. Schwarzwälder Kirschtorte. Disponível em:  < https://www.planet-wissen.de/laender_leute/mittelgebirge/schwarzwald/schwarzwaelder_kirschtorte.jsp> Acesso em 20 de outubro de 2014.

WEBER, J.M. Erich. 250 Konditorei: Spezialitäten und wie sie entstehen. Internationaler Konditorei-Fachverlag, 1934.