Inhame? Um tipo de batatinha? Bom, é bem provável que você o encontre perto da mandioquinha, da batata doce e de todos os tubérculos juninos, caso tenha a sorte de encontra-lo na feira. E se encontrar, compre!

A batatinha de formato arredondado, conhecida como mangará, taioba portuguesa ou mangarito, popular na culinária caipira, virou uma raridade e, até desapareceu em algumas regiões do Brasil.

O mangarito, consumido pelos índios muito antes no período pré-colombiano, é um alimento típico nacional. Entretanto, não há consenso sobre sua origem, já que ele ocorre em regiões tropicais do México ao Brasil. Alguns dizem ser nativo do Brasil Central. Plantado para consumo próprio no quintal das casas das velhas populações rurais – era cozido com casca (para facilitar a retirada da casca) e saboreado com melado. Comida simples, caseira, de gente mais simples ainda.

No Brasil colonial chamou a atenção dos forasteiros, aparecendo no Tratado Descritivo do Brasil (1587) e no Tratado da Terra e Gente do Brasil (1625), do padre jesuíta Gabriel Soares de Sousa. Também citado no livro O Cozinheiro Nacional, do século XIX, em que figura em uma receita de ensopado.

Há muitas maneiras de consumir e preparar o mangarito: puro, como uma castanha, em doces ou pratos salgados, frito, em finas fatias – como fazemos com a maioria dos tubérculos, ou cozidos em suco de limão, com um pouco de salsinha e cebola fatiada. Também serve para purê, sopa, assado… cozido com galinha caipira! Depois do rápido cozimento torna-se tenro, com leve acidez e sabor que lembra o pinhão.

O mangarito é da mesma família da taioba – família das aráceas – assim como o inhame e o cará. A colheita acontece uma vez ao ano, quando as folhas – também destinadas ao consumo – murcham, sinal de que podem ser retirados do calor da terra. Existem, até onde conhecemos, ao menos 40 espécies de mangarito, a maioria extinta. Hoje ainda é possível encontrar os tipos branco, o dedo-de-negro, o amarelo e o roxo.

Talvez por ser um tubérculo dedicado à subsistência não ganhou popularidade, e então acabou desaparecendo, como tantas coisas tão nossas. Quase extinto foi resgatado pelo paulista João Lino Vieira, que voltou a planta-lo no interior motivado pela lembrança da mãe cozinhando as batatinhas, quando tinha 8 anos. O pequeno tubérculo vem conquistando os cozinheiros, mas a dificuldade na comercialização tem sido uma grande barreira para que seu resgate ganhe mais força.

É um alimento altamente energético, rico em proteínas, carboidratos, cálcio, fósforo e vitamina C (daí sua acidez) é considerado a trufa brasileira – afinal, a colheita acontece apenas uma vez ao ano. Talvez por isso talvez seja tão difícil encontrar um agricultor que queira reservar um pedaço de terra e investir em um produto tão peculiar, já que o cultivo demanda muitos cuidados.

É encontrado esporadicamente em feiras no interior de Minas Gerais ou em quintais do interior de Goiás, São Paulo e outros Estados. Tem aumentado a produção em Santa Catarina. Por isso precisamos de mais pessoas como seu João, para que não só ajudem no resgate do mangarito, mas de tantos outros ingredientes verdadeiramente nossos.

Referências

MADEIRA, Nuno; et al. Mangarito sabor de tradição.Horticultura brasileira. Vitoria da Conquista, v. 33m n. 3, julho, 2015.

RIGO, Neide . Não manguem do mangarito. PALADAR , São Paulo, O Estado de São Paulo, agosto, 2016. Disponível em: http://paladar.estadao.com.br/noticias/comida,nao-manguem-do-mangarito,10000010645. Acesso em: 12 agosto de 2015.

Você sabe o que é mangarito? Programa Novo Campo. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=m7vaXxzZSVA>. Acesso em 12 de agosto de 2015.