Hoje acordei nostálgica… acho que essa época de festas, cidades vazias (ou abarrotadas) e tempo demais para fazer coisas de menos (delícia!) faz com que nossa mente comece a pensar em tudo que o coração guarda e, com a correria de um ano todo, nunca recebeu a devida atenção.

Perante minha nostalgia, peguei meu diário de viagem quando morei na Espanha (6 anos atrás) e fui relembrar o que fiz no meu primeiro Ano Novo longe de casa – não que essa memória ainda não viva dentro de mim, ela vive… pois foi um Ano Novo bem atípico, e bom! – mas queria reler a Joyce, de 25 anos, sozinha e independente em uma terra de – ainda – desconhecidos.

 E foi então que achei um poema de Drummond rodeado de memórias…

“Para você ganhar belíssimo Ano Novo, cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia, se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanhe ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens (planta recebe mensagens? passa telegramas?)

Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.”

E foi assim que pela primeira vez na minha vida meu Ano Novo realmente começou certo. Dentro de mim surgia algo novo, não apenas por estar em um lugar incomum, com tantas experiências incríveis me aguardando, mas porque eu me permiti experimentar a novidade.

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Naquele momento eu estava com pessoas que nunca havia visto na vida, franceses beberrões comendo confit de canard enlatado e sorrindo para a vida. Eu, tímida que sou, jamais me enfiaria em uma sala cheia de pessoas que não conheço – mas eu estava lá, desejando Feliz Ano Novo em tantas línguas inventadas, brindando e abraçando pessoas que no dia seguinte, eu não veria novamente.

O Ano Novo não precisa de roupa nova, nem de champagne cara se, dentro de você, não há nada de novo. Se no meio da madrugada você pular 7 ondas, comer sei lá quantas sementes de romã (ou é uva?) e guardar as sementes na carteira, acender vela para Iemanjá e não comer frango porque cisca para trás; mas acordar igual, sem uma faísca no coração que acenda uma coragem nova, se finalmente você não se der conta que a vida é sim curta para viver triste… seu novo ano não vai ter nada de novo. Não é o frango que vai te levar para trás, é você.

Por isso eu desejo que seu ano comece agora, ai dentro, onde seu sangue pulsa. Pare por um segundo! Se estiver na praia, vá caminhar sozinha/o no fim do dia, assista ao pôr do Sol e converse com o seu coração. Reflita o ano que passou, o que te fez mal e o que te fez tão feliz. Analise com cuidado o que você precisa fazer para seguir mais forte, ciente e em paz. Se está em casa, olhe pela janela o vai e vem da cidade, olhe para o céu – mesmo que procurar por ele no meio de tantos prédios nem sempre seja fácil. Respire, feche os olhos e deseje profundamente. Não jogue suas palavras no ar esperando que alguém lá em cima atenda… jogue elas para dentro de você e tente mantê-las viva em seu coração, para que durante todo o ano de 2015, isso seja o seu balsamo, a faísca que vai te mover todos os dias, mirada nos seus objetivos!

No mais, desejo que 2015 seja lindo, mas só depende de você polvilhar um pouco de açúcar e torna-lo mais doce!

Feliz Novo Você!