Quem aguenta viver sem um pouco de chocolate de vez em quando? Poucos, temos certeza! E esse item tão essencial, como a maioria de nós sabe ou desconfia, é feito a partir das amêndoas (sementes, na terminologia botânica) do cacaueiro, uma árvore que tem por nome científico Theobroma cacao L.

A questão é que nestes novos tempos nos quais felizmente estamos aprendendo a apreciar chocolates com maiores teores de cacau e cada vez mais puros, isto é, com menos ingredientes na composição, têm se tornado cada vez mais interessante conhecer a origem, o tipo do cacau e por vezes até a variedade que forneceu as amêndoas para o seu delicioso chocolate. Isto porque, com menos ingredientes para confundir o paladar, o sabor do cacau fica mais evidente. E é justamente isso que o movimento bean-to-bar (chocolates produzidos por um artesão desde as sementes de cacau até a barra!) almeja.

Por isso, ao desembrulhar a sua barra, cabe mais do que nunca a pergunta: Que cacau é esse? Os nomes e apelidos são vários, que por vezes confundem.

Por muito tempo dividiu-se o cacau em três tipos, que frequentemente ainda são utilizados, inclusive pela Organização Internacional do Cacau (ICCO). Os tipos Forastero (Forasteiro), Criollo (Crioulo) e Trinitário. De modo geral, Criollo e Trinitário seriam fornecedores de amêndoas com bom sabor e aroma, já o Forasteiro seria de qualidade inferior, mas não é bem assim.

À luz das novas evidências genéticas, essas divisões não são as mais apropriadas. Sabe-se atualmente que o que era chamado genericamente de Forasteiro na verdade compreende 10 grupos genéticos distintos, com grandes diferenças de formas, cores e sabores. Portanto, chamá-los todos de Forasteiro seria como dizer que todos os brasileiros são iguais, tendo nascido no oeste catarinense, no litoral pernambucano ou em uma aldeia no Amapá.

Já o Criollo, em seu senso estrito, praticamente não é encontrado em plantações comerciais. De modo que, para os estudos genéticos os pesquisadores tiveram que buscar árvores perdidas nas selvas mexicanas e em ruínas Mayas. O material chamado de Criollo que é cultivado e, portanto, que chega a ser utilizado para fazer chocolate na verdade compreende um amplo espectro de plantas com genomas muito diferentes, que possuem genericamente as sementes brancas e os frutos com formatos considerados do Criollo, mas são na realidade bastante diferentes, em alguns casos até se assemelhando geneticamente com plantas consideradas do tipo Forasteiro e Trinitário.

O Trinitário é o grupo mais consistente, resultado do cruzamento de cacau do tipo Amelonado (um dos grupos dentro do que é chamado Forasteiro) com o Criollo, do mesmo tipo que os pesquisadores encontraram nas selvas. O que se sabe é que esse cruzamento ocorreu na ilha caribenha de Trinidad, por isso o nome.

A própria nomenclatura contém um engano. Criollo significa nativo em espanhol, ao passo que Forasteiro, estrangeiro. Os colonizadores espanhóis deram esses nomes referindo-se ao cacau da América Central, de maneira que o Criollo seria o cacau nativo de lá e o Forasteiro todo o resto que vinha de fora. Isso explica em partes a confusão.

A origem do cacaueiro é amazônica. Mais especificamente a região da divisa entre Colômbia, Equador, Peru e Brasil. E aqui vai o ponto mais importante: todo cacau cultivado no mundo veio dessa região!

Eles foram sendo levados pra lá e prá cá pelos indígenas e posteriormente pelos colonizadores. O próprio Criollo veio da Amazônia um dia, carregado pelos índios em suas trocas com as tribos vizinhas até chegar às mãos dos Mayas e Aztecas que desenvolveram o primeiro chocolate. Por isso o Criollo não é nativo da América Central, como pensaram os espanhóis, mas foi levado para lá em tempos pré-colombianos. Todos os outros grupos que chegaram lá depois foram batizados como Forasteiros (estrangeiros), por isso que 10 grupos diferentes de cacau ficaram classificados sob um único termo, Forasteiro.

Apesar de toda essa confusão. O que vale saber é que todo o cacau veio daquele cantinho na Amazônia, até o baiano. Em 1746 um francês chamado Louis Frédéric Warneau enviou do Pará sementes do tipo Amelonado para a Bahia. Essas sementes deram origem a maior parte da lavoura cacaueira bahiana. Daí a origem dos nomes Pará, Parazinho e Maranhão de algumas cultivares bahianas (lembrem-se que nos idos de 1746 existia o “Estado do Maranhão e Grão-Pará” que abrangia o território dos atuais estados do MaranhãoPiauíParáAmazonasAmapá e Roraima, portanto Maranhão e Pará eram a mesma coisa naquela época).

Mais tarde, da Bahia os portugueses espalharam o cacau pelo mundo, o que explica a grande quantidade do tipo amelonado no mundo, sobretudo na África. Assim também fizeram os espanhóis, franceses e ingleses, levando plantas de suas colônias amazônicas e caribenhas, esta última, o local de provável origem do Trinitário, o que também explica a presença de plantas do tipo Trinitário em certos locais do mundo colonizado por esses povos, como o famoso cacau de Madagascar, por exemplo, ex-colônia francesa.

Por isso, toda vez que você comer chocolate, lembre-se que, por trás do que está escrito na embalagem, desde origem geográfica, grupo de cacau ou variedade, existe uma longa história de origem e domesticação do cacau, mas que tudo começou na região amazônica!

Referências

Motamayor, J. C. et al. Cacao domestication I: the origin of the cacao cultivated by the Mayas. Heredity (2002) 89, 380–386.

Motamayor, J. C. et al., Cacao domestication II: progenitor germplasm of the Trinitario cacao cultivar. Heredity (2003) 91, 322–330.

Motamayor, J. C. et al., Geographic and Genetic Population Differentiation of the Amazonian Chocolate Tree (Theobroma cacao L). PloS ONE. (2008) 3 (10) e3311.

 

Vanessa Rizzi e Cesar Frizo

Vanessa é catarinense, colona de nascença, engenheira agrônoma, mestre e doutora em genética e melhoramento de plantas pela ESALQ/USP. Cesar é paulistano, caipira de espirito, engenheiro agrônomo e mestre em agricultura orgânica pela ESALQ/USP. Juntos criaram a Raros Fazedores de Chocolate.