Eu fiquei muito incomodada sobre o caso de cópia da sobremesa da chef Bel Coelho pela finalista Michele Crispim na última edição do Master Chef. Não consigo me aquietar. A briga não é minha. E tampouco estou querendo defender alguém. Mas me incomodei.

E vai sempre me incomodar porque isso não é um caso isolado. Todo mundo já foi, é e será copiado. Não é ‘beneficio’ só da Gastronomia. E tudo bem, as diversas opiniões sobre o certo e o errado não me importam. Acho que falar sobre isso é meio que discutir Corinthians e Palmeiras – não vamos chegar à conclusão nenhuma.

O que me importa são as verdades. A verdade que cada um leva no peito. E por isso, eu escrevi. Porque as vezes é a única coisa que me ajuda a colocar um ponto final. Criar um doce, comer um doce ou escrever. E dessa vez, eu escrevi.

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Nem sempre a originalidade me impressiona. Muitas vezes o original acaba parecendo algo forçado – como se fosse necessário um esforço sobre humano para alcança-lo. O autêntico me atrai mais. Aquela atitude singela, mas cheia de certeza, sempre mexe comigo.

Para ser original você não precisa ser autêntico, nem acreditar em algo. Não é preciso um propósito, uma linha de pensamento, um estudo, nada disso. Mas ser autêntico vem do coração, é o que se é. A autenticidade é a leitura da alma, do que acreditamos e queremos mostrar não só ao mundo, mas principalmente a nós mesmos.

Ser autêntico é dizer o que se quer, através de palavras ou atitudes, ou de um doce… mas com todo o coração. É compartilhar aquilo que você sente estar impelido a compartilhar. Sem forçar. É natural.

Ninguém precisa salvar o mundo com seu trabalho, com sua originalidade. Você não precisa salvar índio ou criar a nova ordem da gastronomia se isso não é a sua verdade. Você não precisa salvar ninguém com o seu trabalho, só você mesmo. Salve-se de uma vida chata e sem sentido, de uma busca cheia de martírio por um holofote, especialmente quando isso o faz ser tudo, menos autentico.

Divirta-se! Faça sua arte.

Suas próprias razões são suficientes. Você simplesmente crer no que ama já lhe coloca numa posição de sucesso – o SEU sucesso, o que você buscou para SI. É o que chamo de sorriso da alma. Você sente ele por dentro. Quase ninguém vê. Aliás, ninguém precisa ver. Só você.

Faça aquilo que o estimula, siga o que te fascina, suas obsessões, suas crenças, seus impulsos. Confie em tudo isso. Pois tudo isso é o que faz seu coração vibrar. O resto vem sozinho.

Se dia após dia você se entregar de corpo e alma ao seu trabalho, à sua arte. Se dia após dia você for fiel ao que acredita. Seja desenvolver novas receitas, seja apenas replicar a tradição. Faça bem feito. Faça com honestidade. E faça porque é a sua verdade.

Se for autentico – pode acreditar – parecerá original.

Joyce Galvão

Idealizadora do Essência Studio é formada em gastronomia e engenharia de Alimentos com especialidades em docência, confeitaria e pesquisa científica voltada para a gastronomia. Escritora, tem seu primeiro livro publicado pela Companhia das Letras e seu sonho é ver nascer no Brasil uma confeitaria mais consistente e unida.