O primeiro registro de um método de concentração do leite data de 1827, feito na França. Mas foi só em 1853 que o leite condensado foi criado pelo norte-americano Gail Borden Jr., como uma alternativa eficaz para o transporte e armazenamento do leite, em uma época em que não existia refrigerador doméstico (surgindo em 1913 nos Estados Unidos e no Brasil em 1947). A ideia de desidratar o leite pelo processo de evaporação e concentrar o produto à vácuo, não fez sucesso ao ser patenteado em 1856, até ser adotado na alimentação dos soldados durante a guerra civil americana (1861-1865) e chegar nas mãos de Henry Nestlé, na Suiça.

A Nestlé iniciou a fabricação do leite condensado em 1878, alimento que já vinha sendo industrializado por outro norte-americano, Charles A. Page, da Anglo Swiss Condensed Milk Co. A concorrência entre as duas empresas fez com que, em 1905, a Nestlé comprasse a Anglo Swiss tornando-se a maior indústria alimentícia do mundo, presente nos cinco continentes do globo.

Gail Borden - The Cyclopaedia of American biography.

Gail Borden Jr. fonte: The Cyclopaedia of American biography.

Os primeiros carregamentos de leite condensado chegaram ao Brasil a partir de 1890, e inicialmente era utilizado apenas como bebida (reconstituído com água), em substituição ao leite fresco, cujo abastecimento se revelava irregular, especialmente no inverno ou quando certas doenças atingiam as vacas.

O leite Milkmaid, que ninguém conseguia pronunciar direito, acabou sendo chamado de “o leite da moça”, porque na embalagem havia a figura de uma vendedora de leite. Tempos depois, após campanhas de reposicionamento do produto, o leite condensado chegou à cozinha como ingrediente para o preparo de doces. O alimento ganhou então uma força extraordinária entre as donas de casa, transformando-se em um produto indispensável nos lares brasileiros.

Em 1921 a NESTLÉ iniciou no Brasil a produção do leite condensado (mais tarde conhecido oficialmente como Leite Moça), inaugurando uma fábrica em Araras, e em pouco tempo o país se converteu no maior mercado mundial do produto, posição que mantém até hoje.

A paixão nacional pelos doces, herdada dos portugueses, acabou por transformar o Leite Moça em um dos produtos mais populares e conhecidos pelos brasileiros, assim como o brigadeiro.

 

 E surge o brigadeiro

Quem encontrar uma receita de brigadeiro no caderno de cozinha da bisavó ou da avó, vai notar que o docinho mais amado do Brasil levava ingredientes de marcas determinadas: leite Moça, chocolate “dos padres” e manteiga. Além disso, as prescrições da receita sugerem que o brigadeiro foi criado em São Paulo, por conta da fábrica Gardano, fundada na capital paulistana em 1921, junto com a fábrica da Nestlé.

A fábrica Gardano produzia um chocolate em pó de alta qualidade, cuja embalagem reproduzia um detalhe da tela do pintor toscano Alessandro Sani (1870-1950), retratando dois sorridentes monges católicos. Por isso, os consumidores batizaram o produto de “chocolate dos padres”.

No início o Leite Moça tinha seu mercado concentrado em São Paulo e o consumo restrito. E foi nessa época (quando o leite condensado foi reposicionado como ingrediente para o preparo de doces) que alguém teve a brilhante ideia de misturar o leite “da moça” com o chocolate “dos padres” criando o negrinho, por conta da cor escura e do chocolate granulado que o envolvia, lembrando uma carapinha. Coincidentemente a Nestlé acabou comprando a Gardano em 1957.

Com tudo isso fica difícil não acreditar que o docinho realmente tenha sangue paulistano! Mas uma outra versão diz que o doce teria sido inventado no Rio Grande do Sul, possivelmente por uma dona de casa muito loira que achou exótica a aparência marronzinha do doce. Hoje, o estado é o único que ainda chama o brigadeiro de negrinho.

O negrinho foi promovido a brigadeiro em 1945, quando o militar e político brasileiro Eduardo Gomes (1896-1981) disputou com Eurico Gaspar Dutra a Presidência da República, sendo derrotado nas urnas. Em 1950, voltou a disputar a presidência, perdendo novamente a eleição, daquela vez para Getúlio Vargas.  “Vote no brigadeiro, que é bonito e é solteiro”, dizia seu slogan editorial, que aliás não rendeu os votos necessários para a vitória, mas em compensação fascinou as mulheres.

o brigadeiro

O brigadeiro Eduardo Gomes / fonte foto: http://www.defesanet.com.br/

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fonte: Revista Isto é

Três versões explicam por que Eduardo Gomes deu nome ao docinho: a primeira diz que as cariocas, engajadas com a campanha, faziam negrinhos, que vendiam com o nome de brigadeiro, em benefício do fundo de campanha. Outra afirma que Heloísa Nabuco, pertencente à uma tradicional família carioca, quis homenagear o amigo, batizando o docinho que inventara com a patente militar de Eduardo Gomes. Doce um pouco diferente do atual brigadeiro, que recebia recheio de doce de ovos. A terceira versão, é a mais duvidosa. Espalhada pelos seus adversários políticos, diziam que o tiro desferido em Eduardo Gomes em 1922, durante a revolta dos 18 do forte de Copacabana, havia atingido seus testículos… E bem, o docinho até então não utilizava ovos, mas que posteriormente passou a ser encontrado nas receitas. Será uma coincidência apenas? Ou os ovos foram parar no doce por influência portuguesa?

Mas as lendas não acabam por aqui! Uma quarta versão diz que o docinho de chocolate, até então quase anônimo, era preparado pelas eleitoras mais prendadas do político, e servidos nas festas de campanha como sendo “o preferido do brigadeiro”, e ainda nessa época não recebia o granulado de chocolate, apenas uma camada fina de açúcar. De tanto ser apresentado desse modo, o docinho, que não tinha nome, passou a ser chamado de brigadeiro.

O doce então, um dos mais consumidos no Brasil, apesar de sua enorme popularidade, sempre foi considerado um doce de festa de criança, e por conta disso a receita nunca foi tão valorizada a ponto de ocupar seu lugar ao Sol.

Estigmatizado como um doce popular, o brigadeiro ficou restrito às panelas domésticas perdendo sua qualidade com o passar do tempo, acomodando-se nas prateleiras solitárias das padarias, por dias a fio. Até que a partir das mãos de Juliana Motter, em 2007, o brigadeiro foi resgatado, repaginado e ganhou lugar de destaque na confeitaria nacional.

Muito mais importante que a palavra gourmet – utilizada de maneira tão equivocada – é o carinho dado ao doce, que recebeu ingredientes de qualidade e apresentação cuidadosa, ganhando finalmente seu espaço como doce nascido, criado e valorizado em seu próprio país.

 

Referências

ALVES, Daniela. Industrialização e comercialização do leite de consumo no Brasil. p. 75-83.

Como surgiu o leite condensado. Nestlé professional. Disponível em: https://www.nestleprofessional.com/brazil/pt/SiteArticles/Pages/Moca_historia.aspx?UrlReferrer=https%3a%2f%2fwww.google.com.br%2f. Acesso em 23 de maio, 2015.

LOPES, J. A. Dias. O docinho do Brasil. Revista Gosto, São Paulo: ed. 8, p. 92-93, março 2010.

MEIRELES, A.J. – Leite Paulista – História da Formação de Um Sistema Cooperativista no Brasil. HRM Editores Associados, 1983

MOTTER, Juliana. O livro do brigadeiro. 6 ed. São Paulo: Panda Books, 2010.

NESTLÈ. Doces brasileiros: as maravilhas do Leite Moça. 1989.

Universidade Federal de Campina Grande. Biografia: Gail Borden. Disponível em: http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/GailBord.html. Acesso em 23 de maio, 2015.

VIARO, Marcos. O doce enigma do brigadeiro. Revista Língua portuguesa: São Paulo. abril 2012.

VIEIRA, Vanessa. Como se condensa o leite condensado. Revista Super Interessante, São Paulo: ed.293, julho 2011.

foto de capa: divulgação/Maria Brigadeiro